sexta-feira, 2 de outubro de 2020

UM TRÍPTICO À GLÓRIA HUMANA

 

INVOCAÇÃO

Ó Musas imortais, de dourados cabelos!

Ouçam desta taverna, desta latrina!

Neste velho e cansado burgo,

Sob a égide de gárgulas ferinas!

 

Com halos celestes, sois visão ditosa;

No meio da plebe torpe e imunda,

Dos dentes podres, de carnificinas gozosas,

Da Cadela Sagrada, da cova profunda!

 

Inspirai a este esquivo rato,

Gerado na escória das ruas.

“Quod is veritas?” – Tenho ampulheta!

Mãos sangrentas, e fúria nua.

 

Ó sagradas águas! Dos comedores de formigas.

Paradoxais águas, de pulquérrimas musas!

Sois gloriosas, mais que o Elba, o Sena e o Rubicão

Águas de alvíssima luz – alvíssima e difusa!

 

PARTE I – ERRANTE NAS SOMBRAS

 

Espada afiada, brasão na parede.

Dançando no templo, contando piadas.

Máscaras muitas, fome e sede,

Escuros caminhos, sonoras risadas.

 

Lembrança do nome tosco e brega

A vingança virá- e da morte, a risada.

Palavras dos sábios, discursos piegas.

Ódio mortal e a queda da escada

 

Dama vermelha em seu nobre escudo

Sutil como a sombra, e frio como o gelo.

Seus pergaminhos, suas peças de ludo.

-E o tolo pensa que pode detê-lo!

 

Cabelos sedosos, sorriso infeliz?

Leal escudeiro ou vil traidor?

“Nemo me impune lacessit”-  diz.

Assim agirá com cautela e fervor.

 

A terra se abre, o inferno a rugir.

Não há o que fazer, cantai odes à Sorte!

Ó Fortuna, que vens dirimir,

És como a lua, teu fim é a Morte!

 

Ladrão descarado? Corta-lhe a face!

Protege sua amada, também seus irmãos.

Persegue a Serpente e quem dela nasce

Á cruz! Á espada! Guerreiro cristão!

 

Olhos de águia, na torre é senescal.

Haverá de estar- verá o cão morto!

Quem mais irá ao cortejo triunfal,

Com um cálice de vinho do Porto?

 

 

PARTE II – PADECENDO NO PARAÍSO

 

 

Rosário na mão, e o “tau” no pescoço.

Rezando as Matinas, diante da cruz.

Pregando aos peixes, limpando o leproso,

De vila em vila,” é sal” e “é luz”.

 

Lembrança do nome sagrado e tão doce!

O Juízo Final às portas está!

Os atos dos santos, as “Summas” dos mestres,

O amor fraternal, tentação que virá!

 

A Virgem Bendita é seu estandarte

Simples, qual pomba. Sutil, qual serpente.

O Santo Evangelho, o sorriso às crianças.

Fogem demônios, e o Rei não faz frente!

 

Seus loiros cabelos, suas pútridas chagas.

Pai tão bondoso, ou Judas à mesa?

“Vanitas vanitatum” – é o que sempre diz

Com ígnea ira,  com frágil destreza.

 

A terra se abre, o inferno a rugir.

Não há o que fazer, cantai odes à Sorte!

Ó Fortuna, que vens dirimir,

És como a lua, teu fim é a Morte!

 

Ao cátaro herege? Dá-lhe um sermão!

Protege as ovelhas, e até ao pecador.

Persegue o rei Midas – Mas tema a si próprio!

Quem muito se gaba, é o mais transgressor.

 

É tudo, por todos. Na torre é vigia.

Haverá de estar- se ao alvo seguir!

Quem mais irá ao cortejo de estrelas,

Ás quais a soberba não fez aluir?

 

PARTE III – TORMENTO DE TÂNTALO

 

Um cetro na mão, e uma adaga adornada,

Bebendo em banquetes, gozando em bordéis.

Pândego vazio – mas todos se prostram!

É filho do Duque! Canção dos menestréis.

 

Um rosto tão belo, um corpo perfeito.

O amor pela mãe. Do remorso, a facada.

Lembrança do pajem- patife maldito!

Mandou-lhe surrar, pela indigna risada.

 

Bandeiras, trombetas, brasões adornados.

Com ouro a seus pés, vivendo em festas.

Suas roupas vistosas, suas liras sonoras.

Age qual um tolo, e  ninguém lhe contesta.

 

A face do inferno, ou o abraço do amigo?

Um mestre querido? Ou um bajulador?

“Carpe Diem” – Seu lema sagrado!

Com amor ao fugaz, sem paz no esplendor.

 

A terra se abre, o inferno a rugir.

Não há o que fazer, cantai odes à Sorte!

Ó Fortuna, que vens dirimir,

És como a lua, teu fim é a Morte!

 

Rival no torneio? Não vai permitir!

Mas chora o irmão. E até a um cão sabe amar!

Correndo, correndo sem nunca atingir,

É um Hércules falho, com a Corça a zombar!

 

Leonina presença, no feudo é senhor.

Haverá de estar – mas como o será?

Teme o além, quando a Missa findar,

Céu de Bem, inferno vil ou terrível cessar?

 

EPÍLOGO

 

 

Olá, cá estou! E estarei ‘té a consumação

Sempre sorrindo, não posso mudar!

Minha ossuda arcada só sabe sorrir

Sorriso verdadeiro, santo e sem par!

 

Sem olfato, melhor sinto os teus aromas

Sem olhos, ninguém me escapa ao olhar

Sem língua, todos temem minha palavra

Sem cérebro, meu engenho é sem par

 

Meu cutelo é afiado, corta diamantes.

Não tenho músculos, mas sou a mais forte

Prazer em vê-lo -prazer que é todo meu!

Sou amiga e carrasca, a Senhora Morte.

 

-Dance, comigo, bispo reverendo!

-Mas mal terminei meu assado!

Assados não servem- “Da carne, ao pó”.

Melhor lhe fora mais ter rezado!

 

 

Dance comigo, senhor alquimista

Acaso achaste como me vencer?

-Não, soberana, há muito fui vencido

Há noventa anos sob teu poder!

 

Dance comigo, valente ladrão!

Por que essa face tão assustada?

“-Assaltei príncipes, roubei cardeais.

Caí de uma égua, e já não sou nada!”


-Que bela coroa, vossa majestade!

Teu reino passou-se,  monarca galhardo!

-Inda estou zonzo, com o golpe que deste

Eu, com a criada, fazia um bastardo!

 

 

No lodo verminoso, o leito comum,

Tudo perece, tudo corre, tudo passa.

Nos mausoléus, nas valas, nas piras

Nas águas primevas, tudo se desfaça!

 

E no Reino da Escura Estada.

Sombras esquálidas, sem divina luz.

Aquiles é escravo, não valem artifícios,

Não valem romãs, valerá então a cruz?

 

 

 

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