INVOCAÇÃO
Ó Musas imortais, de dourados cabelos!
Ouçam desta taverna, desta latrina!
Neste velho e cansado burgo,
Sob a égide de gárgulas ferinas!
Com halos celestes, sois visão ditosa;
No meio da plebe torpe e imunda,
Dos dentes podres, de carnificinas gozosas,
Da Cadela Sagrada, da cova profunda!
Inspirai a este esquivo rato,
Gerado na escória das ruas.
“Quod is veritas?” – Tenho ampulheta!
Mãos sangrentas, e fúria nua.
Ó sagradas águas! Dos comedores de formigas.
Paradoxais águas, de pulquérrimas musas!
Sois gloriosas, mais que o Elba, o Sena e o Rubicão
Águas de alvíssima luz – alvíssima e difusa!
PARTE I – ERRANTE NAS SOMBRAS
Espada afiada, brasão na parede.
Dançando no templo, contando piadas.
Máscaras muitas, fome e sede,
Escuros caminhos, sonoras risadas.
Lembrança do nome tosco e brega
A vingança virá- e da morte, a risada.
Palavras dos sábios, discursos piegas.
Ódio mortal e a queda da escada
Dama vermelha em seu nobre escudo
Sutil como a sombra, e frio como o gelo.
Seus pergaminhos, suas peças de ludo.
-E o tolo pensa que pode detê-lo!
Cabelos sedosos, sorriso infeliz?
Leal escudeiro ou vil traidor?
“Nemo me impune lacessit”- diz.
Assim agirá com cautela e fervor.
A terra se abre, o inferno a rugir.
Não há o que fazer, cantai odes à Sorte!
Ó Fortuna, que vens dirimir,
És como a lua, teu fim é a Morte!
Ladrão descarado? Corta-lhe a face!
Protege sua amada, também seus irmãos.
Persegue a Serpente e quem dela nasce
Á cruz! Á espada! Guerreiro cristão!
Olhos de águia, na torre é senescal.
Haverá de estar- verá o cão morto!
Quem mais irá ao cortejo triunfal,
Com um cálice de vinho do Porto?
PARTE II – PADECENDO NO PARAÍSO
Rosário na mão, e o “tau” no pescoço.
Rezando as Matinas, diante da cruz.
Pregando aos peixes, limpando o leproso,
De vila em vila,” é sal” e “é luz”.
Lembrança do nome sagrado e tão doce!
O Juízo Final às portas está!
Os atos dos santos, as “Summas” dos mestres,
O amor fraternal, tentação que virá!
A Virgem Bendita é seu estandarte
Simples, qual pomba. Sutil, qual serpente.
O Santo Evangelho, o sorriso às crianças.
Fogem demônios, e o Rei não faz frente!
Seus loiros cabelos, suas pútridas chagas.
Pai tão bondoso, ou Judas à mesa?
“Vanitas vanitatum” – é o que sempre diz
Com ígnea ira, com frágil destreza.
A terra se abre, o inferno a rugir.
Não há o que fazer, cantai odes à Sorte!
Ó Fortuna, que vens dirimir,
És como a lua, teu fim é a Morte!
Ao cátaro herege? Dá-lhe um sermão!
Protege as ovelhas, e até ao pecador.
Persegue o rei Midas – Mas tema a si próprio!
Quem muito se gaba, é o mais transgressor.
É tudo, por todos. Na torre é vigia.
Haverá de estar- se ao alvo seguir!
Quem mais irá ao cortejo de estrelas,
Ás quais a soberba não fez aluir?
PARTE III – TORMENTO DE TÂNTALO
Um cetro na mão, e uma adaga adornada,
Bebendo em banquetes, gozando em bordéis.
Pândego vazio – mas todos se prostram!
É filho do Duque! Canção dos menestréis.
Um rosto tão belo, um corpo perfeito.
O amor pela mãe. Do remorso, a facada.
Lembrança do pajem- patife maldito!
Mandou-lhe surrar, pela indigna risada.
Bandeiras, trombetas, brasões adornados.
Com ouro a seus pés, vivendo em festas.
Suas roupas vistosas, suas liras sonoras.
Age qual um tolo, e ninguém lhe contesta.
A face do inferno, ou o abraço do amigo?
Um mestre querido? Ou um bajulador?
“Carpe Diem” – Seu lema sagrado!
Com amor ao fugaz, sem paz no esplendor.
A terra se abre, o inferno a rugir.
Não há o que fazer, cantai odes à Sorte!
Ó Fortuna, que vens dirimir,
És como a lua, teu fim é a Morte!
Rival no torneio? Não vai permitir!
Mas chora o irmão. E até a um cão sabe amar!
Correndo, correndo sem nunca atingir,
É um Hércules falho, com a Corça a zombar!
Leonina presença, no feudo é senhor.
Haverá de estar – mas como o será?
Teme o além, quando a Missa findar,
Céu de Bem, inferno vil ou terrível cessar?
EPÍLOGO
Olá, cá estou! E estarei ‘té a consumação
Sempre sorrindo, não posso mudar!
Minha ossuda arcada só sabe sorrir
Sorriso verdadeiro, santo e sem par!
Sem olfato, melhor sinto os teus aromas
Sem olhos, ninguém me escapa ao olhar
Sem língua, todos temem minha palavra
Sem cérebro, meu engenho é sem par
Meu cutelo é afiado, corta diamantes.
Não tenho músculos, mas sou a mais forte
Prazer em vê-lo -prazer que é todo meu!
Sou amiga e carrasca, a Senhora Morte.
-Dance, comigo, bispo reverendo!
-Mas mal terminei meu assado!
Assados não servem- “Da carne, ao pó”.
Melhor lhe fora mais ter rezado!
Dance comigo, senhor alquimista
Acaso achaste como me vencer?
-Não, soberana, há muito fui vencido
Há noventa anos sob teu poder!
Dance comigo, valente ladrão!
Por que essa face tão assustada?
“-Assaltei príncipes, roubei cardeais.
Caí de uma égua, e já não sou nada!”
-Que bela coroa, vossa majestade!
Teu reino passou-se, monarca galhardo!
-Inda estou zonzo, com o golpe que deste
Eu, com a criada, fazia um bastardo!
No lodo verminoso, o leito comum,
Tudo perece, tudo corre, tudo passa.
Nos mausoléus, nas valas, nas piras
Nas águas primevas, tudo se desfaça!
E no Reino da Escura Estada.
Sombras esquálidas, sem divina luz.
Aquiles é escravo, não valem artifícios,
Não valem romãs, valerá então a cruz?
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